
Maria José de Queiroz
**Entre o ensaio e a ficção** "É preciso esclarecer: sou uma estudiosa. Tenho passado grande parte da minha vida nas bibliotecas e nas salas de aula. Concederam-me até o privilégio de permanecer, trancada à chave, durante o almoço, em Coimbra, na sala de leitura da biblioteca da Universidade, em Frankfurt, na Deutsche Bibliotek, e, em Paris, na Bibliothèque de la Sorbonne. Vivo numa torre de papel. Entenda-se: não de marfim. Ainda assim, longe dos lugares onde se decide a nomeada do best seller. Vivo para os livros, não dos livros. Digo que tenho cinco leitores. Para minha surpresa, sempre aparece quem se declare meu sexto leitor. É para ele que escrevo; os demais são cativos. Incluo-me, portanto, entre os autores de 'imensa minoria'. Não que escreva 'difícil'. A clareza é a polidez do escritor. E para não distanciar-me da rua nem do povo, freqüento o humano, o demasiadamente humano: o amor, a droga, a loucura, a violência, a prisão, a comida, o automóvel, o tango... Esses, os meus temas. Tratei de humilhados e ofendidos, de excluídos e de minorias. Escrevi extensamente sobre o índio e sobre o negro, sobre os judeus, a mulher e o espaço urbano, o exílio e a pobreza. Por que não tenho mais audiência?... O ensaio é a minha forma natural de expressão, pois sou professora, professora de literatura. Mas como me dirijo, na página escrita, ao leitor comum, varro do texto o jargão catedrático. E... principalmente, não dou respostas. Deixo isso para os filósofos. Tento, ensaio (aí está) explicar, de forma acessível, o assunto abordado. Ao modo de Montaigne, o autor dos Ensaios, guia-me o acaso. E escrevo até que julgue ter levantado um número suficiente de questões. Claro que não esgoto o assunto. Foi o que fiz ao falar do exílio e dos exilados: voltei aos hebreus, cheguei aos dias de hoje, mas não esgotei o repertório da infâmia. Ensaiei. Apenas isso. Nada existe de mais grato aos sentidos e à inteligência do escritor que escrever. Mas, também, nada mais terrível, nem mais angustiante. Quando se escreve ensaio – veículo natural do estudo, apto à análise de interesse e mérito literário, sociológico ou filosófico – escolhe-se, antes de enfrentar a página branca, o tema a abordar. No caso da ficção, nem sempre isso acontece. Parte-se de um pretexto: uma notícia na imprensa, um episódio subitamente resgatado pela memória, um incidente que desperte nossa atenção sem motivo claro, plausível. A verdade verdadeira é que, grato ou angustiante, o ato da criação nos redime das misérias do cotidiano. Por isso, e muito mais, estou pensando em deixar o ensaio e instalar-me, mala e cuia, na ficção. Adeus notas de rodapé, citações, índices, prefácios, posfácios, bibliografias exaustivas... Viva a criação." Maria José de Queiroz Fonte: http://www.klickescritores.com.br/mjqueiroz00.html
Born 1936-05-29
Identifiers
- Open LibraryOL93304A
Top Subjects
- Indians in literature. (1)
- Spanish American literature -- History and criticism. (1)
- Spanish American literature (1)
- Vallejo, César Abraham, 1892-1938 (1)
- Arte de furtar (1)
- Pena, Afonso (1)
- Anecdotes (1)
Books by Maria José de Queiroz
Total count: 20
A poesia de Juana de IbarbourouImprensa da Universidade de Minas Gerais1961-01-01
Do indianismo ao indigenismo nas letras hispano-americanas.Imprensa da Universidade de Minas Gerais1962-01-01
Presença da literatura hispano-americana[ensaios]Imprensa/Publicações1971-01-01
César Vallejoser e existência.Atlântida Editora1971-01-01
Exercício de gravitação.Atlântida Editora1972-01-01-
Cadeira n. 40: oração de posseAcademia Mineira de Letras1973-01-01
Como me contaramfábulas historiais.Imprensa/Publicações1973-01-01
Invenção a duas vozesromanceCivilização Brasileira1978-01-01
Homem de sete partidasromanceCivilização Brasileira1980-01-01
A literatura encarceradaensaioCivilização Brasileira1981-01-01
Para que serve um arco-íris?s.n.1982-01-01
Joaquina, filha do TiradentesromanceMarco Zero1987-01-01
Sobre os rios que vãoromanceEditora Atheneu Cultura1991-01-01
A Américaa nossa e as outras : 500 anos de ficção e realidade, 1492-1992Agir1992-01-01
A literatura e o gozo impuro da comidaTopbooks1994-01-01
Amor cruel, amor vingadorEditora Record1996-01-01
A América sem nomeAgir1997-01-01
Os males da ausência, ou, A literatura do exílioTopbooks1998-01-01
Vladslav Ostrov, príncipe do JuruenaromanceEditora Record1999-01-01
Em nome da pobrezaTopbooks2006-01-01